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domingo, 14 de agosto de 2011

Christoph Wulf



Christoph Wulf é pesquisador do Centro de Antropologia Histórica de Berlim e professor da Faculdade de Educação da Universidade Livre de Berlim. É autor e organizador de livros (inclusive conjuntamente com Dietmar Kamper) sobre a rubrica de lógica e paixão, sobre temas como corpo, violência, imagem, performance, ritual e gesto. É o organizador da Enciclopédia Antropológica - Cosmo, Corpo, Cultura, publicada também na Itália e na França. No Brasil publicou, em parceria com Günter Gebauer, o livro Mimese na Cultura. Agir Social. Rituais e Jogos. Produções Estéticas (São Paulo: Annablume, 2004). a. Agir Social. Rituais e Jogos. Produções Estéticas.



por Christoph Wulf
(Universidade Livre de Berlim - chrwulf@zedat.fu-berlin.de)

As sonoridades, as tonalidades e os timbres tiveram uma difusão e uma importância bem maiores do que geralmente acreditamos. Assim, “a música das esferas”, como postularam os pitagóricos, tornou-se audível. Os barulhos da radiação do sol quando entra na atmosfera da terra, os estalos do pulsar e inumeráveis barulhos enviados pelas estrelas são perceptíveis. No “silêncio do mar”, podemos escutar com a ajuda de aparelhos apropriados, numerosos sons produzidos pelas baleias e peixes para se comunicarem. Mesmo os processos de crescimentos de ervas, flores e de árvores podem tornar-se audíveis. Um estudo das transmissões mágicas, míticas e religiosas que concerne o caráter sonoro, tonal do mundo, assim como de seu timbre, com os questionamentos e instrumentos de hoje, promete resultados fascinantes.

Grandes partes do mundo dos sons, barulhos e timbres que nos cercam são submetidas às mudanças sócio-históricas e geográficas. Para os citadinos, a martelagem dos cascos de cavalo e o entrechoque dos potes de leite fazem parte de um mundo que não existe mais. Barulhos até aqui desconhecidos aparecem com a revolução industrial, eletromecânica e eletrônica. As máquinas industriais, os trens, os carros, os aviões, o telefone, o fonógrafo, o rádio, a televisão e o computador produzem novos mundos de sons, de tons e de timbres dos quais a análise ligada a uma pesquisa histórico-antropológica dos processos de civilização promete descobertas interessantes.

Do ponto de vista ontogenético, os sentidos do ouvido e do movimento são os primeiros sentidos desenvolvidos. A partir da idade de quatro meses e meio, um feto é capaz de reagir a estímulos sonoros. Nesse momento, do ponto de vista anatômico, o desenvolvimento da orelha está completo e o nervo auditivo começa a funcionar. O feto ouve a voz de sua mãe, sua respiração, os barulhos da circulação do sangue e da digestão. Ele percebe de longe as vozes de seu pai e de seus irmãos e irmãs, assim como os barulhos agradáveis e perturbadores que são mensagens do exterior dos quais ele reage. O sentido do ouvido se desenvolve muito antes que o sentido da visão, e muito antes dos outros sentidos começarem a funcionar.

Somos interpelados pelo sentido do ouvido antes de nosso nascimento. Ouvimos os outros antes de vê-los, senti-los ou tocá-los. Com ele, ouvimos a fala antes de falar e de entender. Ouvir, desse modo, é a condição para entender e falar. Sentimentos de segurança e pertença se formam pela percepção da interpelação. O sentido do ouvido é o sentido social. Nenhuma comunidade social se forma sem que os membros aprendam a se escutar. Crescemos em uma cultura com a ajuda da percepção dos barulhos, das sonoridades, das tonalidades e das palavras. Esses processos começam antes do nascimento, e se intensificam depois do nascimento e na primeira infância.

Com o sentido do ouvido, não percebemos apenas as palavras que os homens nos endereçam pela fala e sua significação. Da maneira pela qual as palavras nos são endereçadas, ouvimos mais que sua significação; aprendemos alguma coisa sobre o locutor, que se exprime não em palavras, mas na própria enunciação. Pelo balanço do timbre da voz, de sua tonalidade, de sua intensidade e de sua articulação, o locutor se mostra ao ouvinte. Esta transmissão tem um aspecto expressivo e social. A expressão de si do locutor é orientada para um interlocutor que a recebe e a trabalha. Na medida em que o ouvido é ligado à voz, ele praticamente não pode ser dissimulado. A voz e a expressão estão ligadas aos processos vegetativos do corpo e se subtraem em grande parte à influência da consciência (Meyer-Kalkus, 2001). Aqui, a voz assemelha-se à grafia, da qual a pertença para uma pessoa não pode mais estar escondida.

Como o sentido do ouvido é retroativo, o locutor ouve a si mesmo. Seu ouvido segue sua fala. Isto o permite de se seguir como locutor, de ser, portanto refletido. Se fizermos abstração da situação ontogenética da qual o ouvido precede a fala – e a torna possível – não se pode decidir se a fala precede o ouvido ou o ouvido a fala. Quando uma palavra endereçada a um outro homem é percebida, torna-se para o locutor e para o ouvinte o ponto de partida para outras palavras e assim por diante. Esta particularidade do sentido do ouvido permite uma percepção de si pelo homem. Ouvir a respiração, o movimento e a digestão do próprio corpo permite não apenas uma percepção de si elementar e uma confirmação de si, mas também um processo de afetação de si. Isto se manifesta já nos métodos vegetativos, e é particularmente eficaz na fala. Falar é também se falar. É desta forma que o sentido do ouvido tem um papel particular na constituição da subjetividade e da sociabilidade.

Sonoridades, tonalidades e timbres recorrentes criam a intimidade da pequena criança com o seu meio. Em particular, a aparição ritualizada de sons e vozes idênticas ajuda no “enraizamento” da criança, que com a ajuda do ouvido ancora-se no mundo e “conecta-se” com ele. Entre os traços mnêmicos, percepções precoces e os novos barulhos, criam-se contingências. Pela intermediação do ouvido, barulhos do exterior chegam ao interior. Mundos de sons exteriores tornam-se mundos de sons interiores. Em particular nas fases ontogenéticas do começo, “repetições” e “imitações” são elementos importantes para o desenvolvimento do ouvido. Repetições lingüísticas, ritualizadas e estruturadas em ritmo, favorecem a capacidade mimética (Wulf 2006; Gebauer/Wulf 2004). Falar e entender são aprendidos através de imitações variadas. Com a possibilidade de ser ouvido, adquirimos uma nova competência social, com a ajuda da qual a individualidade infantil pode desenvolver-se.

Enquanto a vista nos dá uma imagem do mundo em duas dimensões, o aspecto tridimensional do espaço manifesta-se através do ouvido. Enquanto a vista percebe apenas objetos que estão “diante” dela, a orelha percebe sonoridades, tonalidades e timbres que se encontram atrás dela. Através do ouvido se desenvolvem o sentido e a consciência do espaço. A combinação do ouvido e do sentido do espaço, corresponde a implantação morfológica do sentido de equilíbrio na orelha. Com o ouvido, nós nos “localizamos” no espaço e garantimo-nos a estação de pé e o equilíbrio.

Enquanto a vista tem tendência em perceber as coisas de uma maneira estática e invariável, o ouvido apreende a dinâmica da gênese do tempo. O ato de ouvir está sempre ligado a sucessões temporais. Ouvimos apenas modificações acústicas e as diferenças entre os barulhos, as tonalidades e os timbres. Elas aparecem no “fluxo temporal”. No ouvido, o sentido de equilíbrio, as percepções do espaço e do tempo condicionam-se mutuamente e se reforçam.

Diferentemente da vista que se caracteriza em grande parte pela focalização, as percepções do ouvido são mais difusas. O ouvido pode diferenciar suas percepções mais dificilmente que a vista, que percebe as relações entre os objetos e pode se concentrar sobre detalhes sem perder de vista o conjunto. Certamente, o ouvido percebe também diferenças de direção entre as diferentes fontes de sons, mas é difícil para ele se focalizar. A diferença de capacidade, entre a vista e o ouvido, a ser dirigida torna-se manifesta quando se representa que podemos desviar o olho, fechá-lo mesmo, enquanto pode-se apenas dirigir a orelha e não fechá-la. Enquanto que o sono só é possível com “os olhos fechados”, as estimulações acústicas – quando não ultrapassam certo limiar – não o impede. No sono, ficamos ligados ao mundo exterior graças ao ouvido.

A maior disponibilidade da vista em relação ao ouvido se exprime também pelo maior número de palavras e de metáforas que se referem à vista. O ouvido possui uma posição intermediária em relação à vista e aos sentidos de proximidade, que são o “tocar”, o “olfato”, o “gosto”, a propósito dos quais as línguas indo-germânicas estranhamente conservaram-se “mudas” (Diaconu, 2005). A hierarquia dos sentidos com a dominação e a hipertrofia da vista é um resultado do processo de civilização. As condições na origem desse desenvolvimento encontram-se na passagem do oral para a escrita, no tempo de Platão, na extensão da escrita, seguida da invenção da imprensa e na invenção e extensão das novas mídias. A predominância da vista encontra-se igualmente confirmada nos esforços para desenvolver as “realidades virtuais”. Quase todos os projetos de pesquisa e de desenvolvimento concentram-se sobre a elaboração de “realidades virtuais” orientadas pelo visual, cuja simulação da realidade está, contudo, mantida pela atenção posta aos outros sentidos.

A passagem progressiva para a dominação da vista em relação aos outros sentidos, se efetua no tempo de Platão. Esta situação torna-se tangível com a atitude ambivalente de Platão quando encara a escrita. Ele marca o papel importante da fala e da audição na dinâmica da atividade filosófica, papel que se exprime na forma que ele escolheu: o diálogo, no centro do qual se encontra o homem que fala e que ouve. Quando, na República, Platão designa a música como “a maior educadora do mundo”, aparece igualmente de maneira clara a que ponto ele está convencido do valor da audição. A esta valorização corresponde a significação que a época pré-platônica conferia à audição, com uma conotação mal supervalorizada pela cultura grega. Assim, a audição na cultura oral das epopéias homéricas, tem um papel decisivo quanto a sua propagação. Para dar continuidade a estas idéias de Homero, Platão, enquanto o maior “mestre” dos gregos, impondo sua filosofia, une-se à cultura escrita nascente, a qual ele confere uma contribuição decisiva para a elaboração de novas formas do pensamento e da argumentação.

A passagem da oralidade da época homérica para a literalidade da época platônica introduz de maneira progressiva o papel decisivo da vista na cultura grega. Aparece claramente a qual ponto a escrita torna-se o veículo da superioridade da vista sobre a audição, através de formas transitórias, como a leitura em voz alta, pela qual Svenbro (1988) encontra ilustrações muito marcantes. Sabemos, aliás, suficientemente que a propagação da literalidade tem por conseqüência transformações culturais profundas. Impondo formas do pensamento logocêntricas, conseqüência da expansão da cultura escrita, favorecem-se processos de abstração, cuja afinidade com a vista é evidente. Na alegoria da caverna, na República, a pretensão da vista como meio do conhecimento é formulada de maneira irrefutável. Sua história é bastante conhecida.

Na passagem progressiva de uma cultura oral para uma cultural mais orientada pelo visual, com a propagação do escrito, observa-se igualmente uma transformação do mimético. Sem uma mimese acústica desenvolvida, a difusão das epopéias homéricas e o advento das concepções pitagóricas da música das esferas mal são possíveis. As observações de Koller (1954), sobre a significação da mimese da música e da dança na época pré-platônica, são ilustrações do papel central da mimese acústica na época arcaica. Podemos compreender os mitos de “Narciso e Eco” ou de “Mársias e Apolo” como expressão da tensão entre a audição e a vista, superado o perfil da vista. No mito de Narciso, é o não-respeito da audição e a fixação sobre a vista que é mortal. No mito de Mársias, o luminoso Apolo vence o Frígio Sileno pela música de sua flauta, que desfigura a beleza do rosto. Na história da mimese, este desenvolvimento conduz a associar a mimese com as artes representativas e figurativas. Esta redução da compreensão da mimese necessita uma correção (Gebauer/Wulf, 2005). Na perspectiva antropológica, damos a mesma atenção para a mimese acústica como as outras formas de mimeses.

Certas formas de ação mimética que concernem em falar e ouvir, estão já presentes nas culturas mágicas primitivas. Nos processos de “imitação antecipada” recitam-se na natureza as esperas e os desejos dos homens, na esperança que estas os escutem e os satisfaçam. A natureza deve se prestar às invocações que lhe são endereçadas. A magia é a tentativa de ter influência sobre a natureza e de levar a se comportar de maneira mimética em relação às predisposições do homem. A mimese da natureza realiza-se ouvindo a voz humana através da “orelha” da natureza.

Enquanto nas culturas primitivas pré-mágicas, é a natureza que exige obediência do homem, nas culturas caracterizadas pela magia, é o homem que tenta obter a obediência da natureza pelos processos de imitação antecipada. Em seguida, a prática racional das sociedades históricas se funda sobre a mimese, cujo caráter se transforma certamente pouco a pouco. A utilização organizada da mimese está na base do desenvolvimento da racionalidade como comportamento finalizador, que serve primeiramente ao controle dos aspectos negativos da mimese e à preservação de si. Pelo processo de desenvolvimento da racionalidade instrumental, é o reino do homem sobre o homem que se estende progressivamente. Enquanto anteriormente, a natureza exigia a submissão do ancestral do homem com ajuda do mimetismo, é doravante o homem que exige obediência ao homem em nome da racionalidade. A dominação do homem deve se estender à natureza, nela e fora dela, e na natureza de outro homem. Não é uma submissão às forças míticas dos tempos primitivos ou a utilização mágica que é feita nas culturas primitivas que se produz ao curso do processo de civilização ocidental, mas a submissão à universalidade abstrata de uma racionalidade que tende ao imperialismo. A racionalidade torna-se um poder comparável aos poderes míticos da época mágica. Ela torna-se um mito que toma seu lugar de mitos pré-históricos e exige duravelmente a obediência. No processo de desenvolvimento, a audição encontra-se desacreditada pelo fato de ter seu lugar estreito com a obediência. O homem que fala e decide por si mesmo toma o lugar do sujeito obediente. Neste processo de autodeterminação crescente, a audição esta relegada ao segundo plano. Deste fato, a fala corta o perigo de perder seu poder interior.

Na audição, há uma prioridade das sonoridades, das tonalidades – dos objetos. Como sons que atingem o ouvido, eles reenviam ao exterior do mundo e ao interior daquele que escuta, eles formam um “entre-dois”, um “limiar” da representação que encontra-se na dinâmica do tempo, no movimento entre “antes” e “depois”. No processo de audição são percebidas, graças a ele, semelhanças, correspondências, experiências sensoriais. É sobre este “limiar” que se executam os processos de mimese acústica. É neste “entre-dois” que ecoa a voz do outro, que aparece a magia misteriosa dos sons. A fixação e o jogo ao redor do “entre-dois” permite a mimese acústica, na diferença da audição instrumentalizada, no quadro da qual o entendido encontra-se reduzido a negligenciar os aspectos expressivos dos conteúdos semânticos e de sua função instrumental. A audição mimética permite a aprendizagem das semelhanças e das correspondências sensoriais e não-sensoriais como aquele da expressão dos conteúdos escondidos que se exprimem nela. Seu desabrochar necessita de silêncio e atenção daquele que ouve (Le Breton, 1997). Estas são as condições necessárias para a concentração sobre o “entre-dois” ao redor da qual se realizam a imitação, a imitação antecipada e a representação.

Na diferença da linguagem, que permite ao indivíduo entrar em relação com o mundo, na medida em que ele conduz o exterior e o interior ao mesmo nível, o seu, que é comunicado no “entre-dois” da audição mimética, a música é – ao menos em grande parte – auto-referencial. Não há nela nem exterior nem interior. Esta igualdade à si da música é igualmente em sua origem, em todo caso no que concerne a música clássica, de sua aura e de seu caráter misterioso. Como a beleza e o amor, a aura e o caráter enigmático só podem ser aprendidos no “entre-dois” do comportamento mimético, no qual realiza-se a adaptação do ouvinte à música. Neste processo se produz uma extensão ao nível da música, na qual aquele que ouve esforça-se em recriar sua síntese, sua coerência, sua seqüência e tenta assemelhar-se a ele. Na audição mimética, trata-se de evitar que a linguagem e a música sejam reduzidas ao horizonte daquele que ouve; aquele que ouve deve ao contrário estender seu horizonte adaptando-se. Prioridade cuja linguagem e a música se reportam à audição mimética. Neste processo de adaptação, está, contudo uma diferença a partir da qual se formam um desejo e uma alegria estéticos.

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